quarta-feira, 30 de julho de 2014

Hiperidrose

Sofri desta doença durante muitos anos. Primeiro sem saber o que era, depois a procurar a cura que não aparecia em lado nenhum.
 
Hiperidrose é a transpiração excessiva. Pode ser palmar (mãos e pés) ou axilar (era o meu caso).
 
Tive a revelação no dia em que a minha irmã do meio me disse "que nojo, estás toda suada, estás sempre suada!". Eu não sabia, não tinha percebido. Deveria ter uns 12 ou 13 anos. Lembro-me que não estava sempre, mas estava muitas vezes.
As minhas camisolas ficavam molhadas na zona das axilas, ficavam com um cheiro desagradável, estragavam-se muito rapidamente, apesar da minha mãe as lavar à mão para ficarem bem limpas. Mas não ficavam. Começavam a ficar escuras.
 
Comecei a notar que, quando estava nervosa ou insegura transpirava de forma excessiva, descontrolada.
Comecei a ficar ainda mais nervosa quando sentia que estava a transpirar e transpirava ainda mais. Nenhuma das minhas amigas transpirava assim, porquê eu?
 
Passaram uns anos e eu comecei a ter técnicas para disfarçar: não vestia camisas porque o tecido ficava muito molhado, vestia SEMPRE uma t-shirt de algodão por baixo de qualquer camisola porque absorvia a transpiração e demorava mais tempo a ficar visível, no verão nunca vestia t-shirts, sempre alças, ia à casa de banho várias vezes limpar com um papel, pois estava sempre encharcada, punha bocadinhos de papel higiénico nas axilas para absorver e depois trocava-os.
A minha vida passava com a transpiração sempre na minha cabeça. Eu nunca desligava.
 
Experimentei todos os desodorizantes, anti-transpirantes, mesinhas caseiras, tudo. Nada resultava. Tomava banho e lavava-me a toda a hora, mas não fazia diferença.
 
Transpirava ainda mais no Inverno, quanto mais frio estava mais eu transpirava. Em casa, com a família não transpirava nada!
 
Comecei a desesperar e a procurar cura para aquilo. Primeiro descobri, na internet, qual era o meu problema: Hiperidrose. Nunca tinha ouvido falar em tal palavra, mas afinal existia "diagnóstico" e outras pessoas como eu.
 
Fui ao médico de família: era nervoso. Tomar 2 Valdispert todas as noites. Não melhorou.
Fui a um médico de clínica geral privado, que é barra e trata toda a gente com máxima eficácia: era nervoso. Tomar 4 Valdispert à noite. Chegava a tomar 6! Não melhorou nada, mas passei a dormir como um anjo.
 
Comecei a pesquisar na internet. Precisava de encontrar um médico que me ajudasse e não me dissesse que era nervoso. Eu sabia que a parte nervosa era fundamental, mas não era esse o gatilho. Eu transpirava muito mesmo.
Descobri que havia uma cirurgia, com muitos riscos e caríssima. Pedi informações aos hospitais privados, tinha que marcar uma consulta. Eu tinha medo de ser operada.
 
Até que descobri a "cura" para mim: Botox. Injetava-se nas axilas e paralisava as glândulas sudoríparas, parando a transpiração. Era um tratamento experimental e só havia um médico a faze-lo. Custava 400€ e durava 4 a 6 meses!!! Mas eu tinha que fazer.
Estava na faculdade, não tinha dinheiro, mas implorei aos meus pais. Seria a prenda de aniversário, Natal, bom comportamento, de tudo. Eles aceitaram. Tive que ir a Lisboa, a um dermatologista que não conhecia, sem saber se resultava. Ia a tremer. E se não resultasse? Eu não tinha mais nenhuma alternativa e iria gastar uma pipa de massa em vão.
 
O meu pai foi comigo. Fiquei sozinha no consultório. Quando o médico me chamou eu estava alagada em suor. Ele perguntou-me se eu queria levar anestesia local em gel. Eu não quis. Tinha medo que fosse muito caro.
Quando me despi e levantei os braços o médico ficou impressionado. Via-se cada gotícula de suor a sair. Ele disse que facilitava o tratamento, pois assim sabia exatamente onde injetar.
Disse-me que a duração do efeito era variável. Vesti a minha camisola molhada e fui-me embora.
Nesse dia não suei mais. Nem no seguinte. Senti-me tão, mas tão feliz.
 
Sabia que teria que voltar a fazer, mas soube o que era ser uma adolescente normal. Vestia o que queria. Se fizesse desporto transpirava o normal. Era livre, finalmente.
 
Ao fim de seis meses já transpirava outra vez, menos que antes, mas mais que o normal. O meu namorado (atual marido) ofereceu-me o tratamento, pois sabia a importância que tinha para mim.
Ainda repeti mais uma vez e pronto, fiquei "curada". Era pouco provável que acontecesse, mas aconteceu.
Os tratamentos controlaram a parte emocional e nervosa, podem ter paralisado de vez algumas glândulas e a mudança de idade deve ter feito o resto.
 
Hoje sou uma pessoa normal e já nem penso na mancha por baixo dos braços, porque já não existe.

2 comentários:

Magda E. disse...

Interessante. Gostei de ler.

Ana disse...

Obrigada.